Viagem a Diamantina

Estive em Diamantina em 1982. Apesar de ter morado em Curvelo por 16 anos, não conhecia a cidade natal de JK. Mas ouvira falar de seu carnaval, seu artesanato, seus casarões da época do Império…  e com meu cunhado Wilson e o amigo Gilson, fomos até lá. Na estrada, já ia admirando o que a natureza fez de mais belo em meu estado. O asfalto não era tão conservado e a rodovia não estava sinalizada como deveria, mas as laterais, com tanto cascalho e rochas de cristal, me deixavam maravilhado. Já assumi um compromisso comigo mesmo de levar minha esposa e os dois filhos para conhecerem. Gilson já conhecia, pois estudara no Seminário Menor de Diamantina. E falamos sobre isso durante a viagem. Nós fizemos o teste para o Seminário, na condição de coroinhas da Matriz de Santo Antônio, em Curvelo. Aprendemos as funções dos coroinhas para as missas e outras liturgias católicas. Época da missa em latim. Com o padre de costas para os fiéis. Depois isso mudou, com o Concílio Ecumênico Vaticano II introduzindo novas práticas ao rito católico das celebrações. Fomos visitar o Seminário. Queria saber onde era o local para onde eu poderia ter ido também, não fosse minha mãe dizer que não queria seu único filho homem estudando em outra cidade, mesmo que não fosse para se tornar padre.  E obedecer a mãe era algo que estava entre os primeiros ensinamentos que recebi.  E, talvez por isso nunca tenha levado umas lambadas em casa.

Fiquei sabendo que Padre Celso de Carvalho tinha se transferido para Diamantina e lecionava no Seminário. Queria lhe falar, se fosse possível. E ao nos aproximarmos do grande portão que dava acesso aos jardins e à portaria, deparamos com uma figura conhecida, andando entre os canteiros de flores. Com sua batina preta, andar miúdo, um livro nas mãos, óculos “fundo de garrafa” nos olhos, lá estava o padre a quem eu queria levar um agradecimento. Já gritei seu nome logo.

-Padre Celso… pode vir aqui um momento?

Ele foi chegando até onde estávamos. Aparentemente forçava a vista tentando já identificar quem o chamara. Alto, claro, longos braços, cabelo cortado baixinho, ele chegou e quis saber quem queria lhe falar.

-Fui seu aluno em Curvelo. Passei aqui para lhe trazer um agradecimento que acho não ter feito apropriadamente.

-E você é filho de quem?

-Sou filho do Antenor Sola D’anta, neto de seu Chico Sola D’anta…

-Ah! Lembro demais dos dois. Seu avô morava lá na Xavier Rolim. E de você também. Mudou um pouco, encorpou mais. Foi me pedir uma bolsa de estudo.

Fiquei intrigado pelo fato de Padre Celso se lembrar do endereço de Vovô!

-Sim, padre Celso. Tupinambá me encaminhou. E sem fazer admissão fiz um teste e passei no Colégio Padre Curvelo. Mas minha família não podia pagar a mensalidade. E fui lhe pedir para estudar lá… O senhor me concedeu uma bolsa integral.

-Estou lembrando. Fizemos isso algumas poucas vezes. Gostaria de ter feito mais, porém o colégio tinha um custo elevado.

-E vim aqui para lhe agradecer novamente. Aquele seu gesto foi muito importante para mim. Depois nossa família mudou para o Paraná, e graças àquela ajuda, pude ter uma boa base nos estudos iniciais.

Ficamos alguns minutos mais nos falando e depois saímos para conhecer a casa onde nasceu Juscelino, filho mais ilustre e orgulho de Diamantina.

Alguns anos depois voltei como previra. Conhecemos tudo que se deve nesta bela e histórica cidade. Desta segunda viagem o que minha esposa e filha jamais esqueceram, foi o Restaurante Grupiara, onde os artistas da Globo, que gravam um remake de irmãos Coragem faziam suas refeições. Nosso amigo Celso Leonel havia recomendado um filé que ele disse nunca comera igual. Não me recordo o prato que Daniela e Neli pediram. Eu e Neto, meu filho, pedimos o filé mignon (tornedor) ao óleo e alho. Quando na cozinha começaram o preparo deste prato, o cheiro inundou o ambiente e quando chegou à mesa para nos servirmos, “a boca virou um corgo”. O filé mignon estava no ponto ideal e na panela de pedra havia alho para quem realmente gosta. Nos servimos da primeira porção e logo pedimos outra. Dani e Neli ficaram admiradas do nosso apetite. Um banquete para dois esfomeados.

Iríamos visitar uma tecelagem logo após o almoço. Pegamos o carro e tomamos a estrada. Neli e Dani pediram logo para ligar o ar condicionado. Norte de Minas é realmente quente! Mas o que incomodava era o cheiro excessivo do alho que saía pelos nossos poros. Tivemos que parar na estrada. As duas reclamavam demais. Ameaçaram voltar para Curvelo de ônibus. Neto e eu ríamos da situação… mas não nos incomodava a lembrança que ficou do prato delicioso que saboreamos. A noite no Hotel Sagarana não teve tanta reclamação pelo cheiro do alho que ainda exalávamos.

Antenor Ribeiro

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