Delcídio admite que voz na gravação é dele

Em depoimento prestado nesta quinta-feira (26), na Superintendência da Polícia Federal (PF), em Brasília, o senador Delcídio do Amaral (PT-MS) negou ter tentado obstruir as investigações da Operação Lava Jato. A oitiva durou quase quatro horas e, segundo a defesa do senador, ele respondeu a todas as perguntas e esclareceu o episódio no qual é acusado de obstruir a Justiça.

“Ele não tentou obstruir a investigação. Foi tudo esclarecido no depoimento que ele prestou”, disse o advogado de Delcídio, Maurício Leite, durante entrevista a jornalistas que aguardavam o resultado do depoimento.

O depoimento foi conduzido pelo delegado Thiago De Lamare, que atua na força-tarefa da Lava Jato e foi acompanhada por dois procuradores da República e dois advogados do senador. Durante o depoimento, o delegado mostrou as gravações feitas pelo filho de Nestor Cerveró, Bernardo Cerveró e que serviram de embasamento para o pedido de prisão do parlamentar.

As gravações foram feitas durante uma reunião com a presença do advogado de Cerveró, Edson Ribeiro, do petista e do seu chefe de gabinete, Diogo Ferreira. No material encaminhado à Procuradoria-Geral da República (PGR), Delcídio discute um plano para evitar que o ex-diretor da Área Internacional da Petrobras, Nestor Cerveró, pai de Bernardo, assinasse um acordo de delação premiada.

Confrontado com as gravações, Delcídio reconheceu que estava presente na reunião, mas, segundo o advogado, negou que tenha tentado dissuadir Cerveró de firmar um acordo de delação premiada. “Isso não ocorreu. Amanhã vamos soltar uma nota explicando essa situação, mas já está esclarecido no depoimento dele”, disse Leite.

Após o depoimento, Delcídio conversou por quase duas horas com seus advogados para traçar a estratégia de defesa. “Estou muito confiante e confortável com o depoimento que foi prestado. Ele [Delcídio] conseguiu esclarecer todos os questionamentos das autoridades”, afirmou Leite.

De acordo com a defesa, outro depoimento, ainda sem data marcada, deverá ocorrer para que o senador preste mais esclarecimentos. A data ficará a cargo do delegado da PF. “Eu acredito que seja o mais rápido possível porque estamos tratando com um senador que está preso”.

Após os depoimentos, a defesa do senador estuda pedir a revogação da prisão. Ainda de acordo com o advogado, Delcídio mostrou-se chateado com a prisão, mas que aguarda “sereno” o desenrolar das investigações.

O senador está preso na carceragem da Polícia Federal (PF) em Brasília após decisão unânime da segunda turma do Supremo Tribunal Federal (STF). Após a decisão do STF, o plenário do Senado decidiu manter a prisão de Delcídio. Em votação aberta, os senadores decidiram que o petista deverá ser mantido preso por 59 votos contra 13 e 1 abstenção.

Delcídio foi levado para a PF na manhã de ontem, na 21ª fase da Operação Lava Jato, quando também foram presos seu chefe de gabinete Diogo Ferreira e o presidente do banco BTG Pactual, André Esteves. O senador passou a noite em uma sala administrativa adaptada, na superintendência. De acordo com o assessor do senador, Eduardo Marzagão, Delcídio amanheceu “menos assustado” do que estava após ter a prisão decretada.

O Caso

O líder do governo Dilma Roussef no Senado, Delcídio do Amaral (PT-MS), foi preso na manhã desta quarta-feira echegou por volta das 8h15 à sede da Superintendência da Polícia Federal em Brasília. A prisão do senador foi autorizada pelo ministro-relator da Operação Lava Jato no Supremo Tribunal Federal, Teori Zavaski. De acordo com a Polícia Federal, o senador foi preso por tentar atrapalhar as investigações da Lava Jato. Uma gravação feita por um filho do ex-diretor da Petrobras, Nestor Cerveró, incrimina o senador petista, que estaria oferecendo fuga e até “mensalinho” ao pai do seu interlocutor.

No Senado, a Polícia Federal realizou operação de busca e apreensão nos gabinetes da liderança do governo e do senador. A Polícia Legislativa impediu o acesso da imprensa ao local.

Na Superintendência da PF, a assessoria do senador informou que recebeu a notícia da prisão com surpresa e que não sabe do que se trata. Ainda segundo a assessoria, o advogado do parlamentar, Maurício Leite, entende que a prisão é ilegal.

Senador por Mato Grosso do Sul desde 2003, Delcídio é líder do governo e presidente da Comissão de Assunto Econômicos (CAE). Engenheiro eletricista, participou da construção e montagem da Usina de Tucuruí, no Pará. Passou dois anos na Europa, quando foi diretor da Shell na Holanda. Em 1991, dirigiu a Eletrosul. Em março a setembro de 1994, ocupou a Secretaria Executiva do Ministério das Minas e Energia. Foi também presidente do Conselho de Administração da Companhia Vale do Rio Doce e ministro de Minas e Energia, de setembro de 1994 a janeiro de 1995. Filiado ao PSDB de 1998 a 2001, fez parte da Diretoria de Gás e Energia da Petrobras.

Lider do governo petista, Delcídio Amaral teve atuação distanciada do PT no episódio do “Mensalão”. Nem por isso, no entanto, segundo informações, deixou de participar de um esquema de propina desvendado na Operação Lava Jato. Delatores dessa operação citaram o envolvimento do senador em ações que desviaram dinheiro da Petrobras. Em interceptação telefônica a PF conseguiu descobrir ligação entre o político e pessoas já na condição de acusadas na Operação Lava Jato. Nestor Cerveró, com quem trabalhou na Petrobras, é uma peça-chave neste episódio, pois o senador teria tentado dissuadí-lo da deleção premiada, procurando seu filho para apresentar uma proposta que envolveria até mesmo uma fuga para a Espanha. O presidente de um banco também teria envolvimento nesta questão, o que caracterizaria a tentativa de obstruir as investigações em curso. A conversa entre Delcídio e o filho de Cerveró foi gravada e a Polícia Federal teve acesso ao conteúdo.

Antenor Ribeiro – Destaknews

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