Madrugada

É madrugada. Eu acordo e o silêncio é tão denso que quase se pode tocá-lo. Quis acender a luz e o gesto ficou em meio, inacabado. Era melhor a escuridão. Afinal, é ela a minha companheira fiel, que não me faz perguntas, não me aniquila com um interrogatório difícil, sufocante.

madrugadaMadrugada e silêncio. De repente, percebi que não estava tão só quanto pensava. E que bom foi sentir a sua presença neste momento. O frio se afastou, os meus olhos devem ter brilhado de felicidade, pois tudo ficou claro, maravilhosamente límpido, apesar da escuridão. Foi na madrugada, na penumbra, procurando mais uma vez que eu a encontrei.

Você está comigo, mora em mim, em meu peito, as vinte e quatro horas do dia. Já não preciso mais buscá-la pelos caminhos que andei. E eu, que pensava não ser possível viver sem você, agora percebo que você é esta alegria que me invade o coração, me dá forças para ir em frente, é a lágrima que não brota, mas muitas vezes me cortou o pranto que teimava em sair, como a querer mostrar a outros uma dor que é só minha.

Você foi a minha caminhada, cabisbaixo, derrotado, vencido pela angústia de ter que abraçar o vazio. Mora em minha saudade. Melhor viver com sua lembrança se já não posso mais, como antes, constatar em meus lábios o seu frescor, sentir em minhas mãos os tesouros que agora um outro deve possuir. E nem me importo que seja assim. Também se vive de recordar. Abraçarei sua imagem, tão viva em minha recordação, quando me sentir necessitado do carinho que antes você me dava.

Seu amor é gratuito, mas agora me custa caro. Não tenho nada que valha a sua volta e nem posso substituí-la por um brinquedo qualquer. E no início tudo parecia apenas uma brincadeira. Continuarei vivendo com a certeza de que um dia alguém me amou. E mesmo que venha a possuir um novo amor, ele não poderá afastar de todo a sua imagem.

Madrugada. E eu a descobri no fundo de mim mesmo. E onde está você? Será que suas noites são como antes? Será que a outro você conseguiu dizer as mesmas palavras que um dia ouvi e hoje recordo? Será que apagou as marcas que lhe deixei? Terá sido alguém capaz de lhe dar com a mesma intensidade tudo quanto lhe dei e ser para você tudo que eu fui?

Madrugada. E onde estará você, meu amor?

Autor: Antenor Ribeiro

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